Por Karl W. Goldstein
(pseudônimo do engenheiro civil e parapsicólogo Hernani Guimarães Andrade)
Livro Transcomunicação Instrumental (Coleção Folha Espírita, v. 1, São Paulo, 1992).
As informações obtidas através das vozes captadas pelos gravadores não são transmitidas por meio de sentenças longas e discursivas, como muitos poderiam pensar. Elas são fragmentárias e constituídas por frases curtas e sintéticas. Entretanto, permitem que se formem claramente os quadros acerca do mundo espiritual, uma vez agrupadas por categorias e conectadas convencionalmente. Fazem lembrar um quebra-cabeça que se vai compondo e formando sentido à medida que combinamos as diferentes peças esparsas.
Através das muitas informações obtidas, foi possível a Friedrich Jürgenson compor um quadro das condições reinantes em certas regiões do mundo espiritual. Segundo o próprio Jürgenson, ele “recebia essas mensagens gradualmente, de acordo com sua evolução e compreensão unitiva”.
Inicialmente deram-lhe uma descrição detalhada de certa região do Além, equivalente ao que chamaríamos de Subúrbio e que compreendia vários Distritos ou planos de existência. Parece que os autores das vozes pertenciam, sobretudo, a essa região. Depois descreveram-lhe uma zona inferior, onde ficavam os detentores de graves deformações morais oriundas diretamente da crueldade em geral.
Devido às propriedades ideoplásticas da matéria de lá, essas entidades criaram um submundo fantástico, composto de regiões ocas e trevosas, que as vozes chamavam de Cavernas. Tais covas negras funcionam como locais para onde resvalam os criminosos e demais espíritos de baixa condição moral.
Um fato curioso é o que as vozes denominam de “Despertar dos Mortos”. Esse despertamento ocorre como resultado da propagação das ondas de rádio, as quais atuam de forma estimulante sobre os encarcerados naquelas pavorosas cavernas. Eis como Jürgenson descreve tal acontecimento:
“Dentro dessa grande ação libertadora, destinou-se um papel especial ao ‘Despertar dos Mortos’. Pode parecer fantástico, mas, ao que tudo indica, a maioria dos mortos das regiões do astral inferior encontra-se num estado de sono profundo, principalmente aqueles que tiveram morte violenta”.
Os mortos aos quais se refere Jürgenson são aqueles espíritos endividados que, após a morte, caem nas cavernas do submundo e ali se tornam presas de seus próprios pesadelos, juntamente com suas vítimas e comparsas.

de purgatório para alguns espíritos.
Do lado de lá, há desencarnados empenhados na operação “Despertar dos Mortos”, empregando os recentes recursos de ondas de rádio para esse fim: “Considerando bem, o ‘despertamento’ equivale a uma intervenção psíquica, por meio da qual os ‘adormecidos’ devem ser arrancados do jugo dos seus pesadelos e obsessões”.
Tudo isso faz-nos lembrar as descrições fornecidas através da mediunidade de Chico Xavier e contidas nas obras da série Nosso Lar. A única diferença reside na forma como tais informações foram e são transmitidas pelo grande médium. Sem dúvida, não há termos de comparação entre um gravador eletrônico e o ultrassofisticado mecanismo cerebral humano do médium. Mas, para os céticos, o fenômeno das vozes gravadas em fitas magnéticas representa evidencia maior no tocante à autenticidade do fato.
Mas, essas vozes seriam mesmo dos desencarnados?
Até aqui limitamo-nos a relatar os fatos, pura e simplesmente como eles se apresentam. Tivemos a oportunidade de ouvir algumas reproduções dessas gravações, obtidas em lugares diversos por diferentes pesquisadores. Realmente são impressionantes, e constitui um sério desafio achar outra explicação para tais vozes, além daquela que elas próprias nos oferecem: vozes de pessoas já falecidas.
Afora a explicação de que elas se originam dos desencarnados, outras hipóteses paralelas foram também sugeridas, visando a substituir a da comunicação com os mortos. Eis algumas delas:
1. “Trata-se de vozes comuns captadas acidentalmente pelo microfone através das ondas de rádio”.
A hipótese não explica a forma poliglótica de inúmeras mensagens obtidas; também não dá conta dos casos em que ocorrem os diálogos entre as vozes e os operadores.
2. “Brincadeiras de radioamadores ou de estações clandestinas”.
Não explica os diálogos e nem a disseminação através dos inúmeros países onde são escutadas essas vozes; até no Brasil elas têm sido captadas.
3. “Produto de alucinações ou de ilusões auditivas que tem levado os ouvintes a imaginarem frases ilusoriamente ouvidas em meio ao ruído de fundo”.
Em certos tipos de gravação, as vozes são muito débeis, dando ensejo a algumas interpretações dúbias das frases ouvidas. Daí surgirem controvérsias, especialmente devido à semelhança entre si de palavras pertencentes a diversas outras línguas, mas com significados diferentes. Fato que poderia dar ensejo a que o experimentador distorça o sentido da informação, tentando impor sua eventual crença na comunicação dos mortos.
Todavia, a explicação não se aplica à maioria dos casos, em que as frases são suficientemente fortes e nítidas, de maneira a serem facilmente ouvidas e entendidas. Em alguns casos, permitem até a identificação correta do desencarnado, pelo timbre da voz, como ocorre entre nós nas conversas por telefone. As que ouvimos pessoalmente eram absolutamente claras e inteligíveis.
4. “Produto de fraudes, falsificações ou da ‘conspiração’ de um grupo interessado em impor uma crença ou obter vantagens financeiras através da ‘venda’ desse tipo de ilusão”.
A hipótese não se sustenta devido à repetibilidade do fenômeno por qualquer experimentador, seja qual for a sua crença, nível intelectual ou moral. Como negócio, parece ser um dos menos rendosos, pois os ‘lucros’ materiais são altamente negativos.
5. “Fenômeno psicocinético, tipo poltergeist. O inconsciente do experimentador imprime as frases nas fitas, por processo psicocinético”.
Esta tem sido a hipótese mais evocada pelos céticos. É o último reduto atrás do qual os materialistas reducionistas se entrincheiram e resistem obstinadamente. A nosso ver, é a mais fraca de todas as hipóteses, por várias razões:
a) Atribuir tamanho poder psicocinético e com tal frequência nas intervenções do inconsciente parece não corresponder à realidade cotidiana dos fatos. Como ficariam então os resultados experimentais das pesquisas finas de laboratório? Será que a física quântica, a eletrônica, a microbiologia e outras disciplinas terão de engavetar os seus resultados, devido à possibilidade de haverem sido falseados pelas diabruras psicocinéticas do inconsciente de alguns experimentadores?
Por que, então, se torna tão difícil a obtenção dos efeitos psicocinéticos em laboratórios de parapsicologia, uma vez que a motivação deveria contribuir para sua maior manifestação?

b) Por que as fitas magnéticas precisam correr nos gravadores para sofrer a impressão das vozes? É comum às próprias vozes pedirem que se mude as frequências sintonizadas, para melhorar a captação. Não seria o caso de se imprimir diretamente na fita virgem, se fossem tais gravações operadas psicocineticamente pelo inconsciente do operador?
c) Por que o inconsciente, que é tido como quase onipresente, prefere um processo tão complexo de interferência de ondas eletromagnéticas, se ele poderia usar diretamente outros meios mais simples?
d) Entre os próprios experimentadores, há aqueles que insistem em negar a sobrevivência e a possibilidade de comunicação dos desencarnados. Por que os inconscientes desses operadores não contradizem aquilo que afirmam os inconscientes dos que aceitam a sobrevivência, a respeito da procedência dessas vozes? Eles poderiam dizer, nas gravações, justamente o contrário do que as vozes normalmente afirmam.
Conclusão
O fenômeno das vozes captadas diretamente pelo processo dos gravadores eletrônicos é, talvez, a mais sólida e a mais eloquente evidencia de apoio à tese da sobrevivência “post-mortem”. Mas se o homem sobrevive após a morte do corpo físico e se a vida além-túmulo parece prosseguir ao estilo da experimentada aqui no mundo material, embora com algumas variantes típicas, qual seria o próximo lance dessa “aventura biológica”?
O que viria depois? Viver-se-ia em um céu ou em um inferno, eternos e estáticos conforme preconizam algumas religiões? Prosseguir-se-ia, do lado de lá, em novas etapas evolutivas? Ou voltar-se-ia de novo ao palco da vida para continuar aquela mesma ‘aventura biológica’ que se iniciou há vários bilhões de anos aqui ou alhures?
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